Crônica
SABOREIEM UM CAFÉ NA FEIRA DO AGRONEGÓCIO PIRAÍBA
Nessa manhã de domingo embalada por um frio constante, seco e gelado, um pouco fora de época e que prenuncia uma estiagem severa na República do Berço do Madeira, esse cronista após tomar uma xícara de café amargo, com a mesma “consistência de petróleo cru”, armou-se de sua inspiração beradeira e decidiu visitar a Feira do Agronegócio Piraíba, recém-inaugurada no último dia 5 de julho.
Beradeiros e beradeiras! Confesso que levei anos até conseguir saborear café sem açúcar, assim como tudo na vida é um longo e paulatino aprendizado. Hoje, sinto-me curado dos falsos prazeres que o açúcar refinado nos proporciona.
Homem! Deixe de tantas estiagens severas e firulas amargas e conduza logo essa crônica dominical ao encontro do seu Piraíba.
Desculpe-me apressado leitor e insistente leitora! Escrever é “duro como quebrar pedras”, às vezes desistimos na primeira chibatada e vamos procurar outra ocupação menos árdua.
Pasmem! Navegar nas redes sociais a procura de futricas inúteis é uma delas.
Bom! Decidi, não escreverei uma única linha sobre a Feira do Agronegócio, mas, deixo aqui registrado um convite a vocês beradeiros e beradeiras: No próximo domingo, dia 21 de julho, em que o Berço do Madeira comemorará 36 anos da posse do prefeito provisório Francisco Fernandes Pinto (Chico Pinto), acordem cedo, tomem uma xícara de café, o açúcar é por conta de vocês e façam uma visita à feira.
E tirem vocês suas próprias conclusões. Lembrem-se! É mais uma conquista da comunidade do Berço do Madeira e mérito político do prefeito Marcélio Brasileiro.
Reparem bem! Há outro mérito do prefeito estampado na fachada do prédio: Piraíba (Feira do Agronegócio). Vocês suspeitam quem foi Piraíba?
O popular Piraíba (José Francisco de Oliveira), foi um maranhense que aportou em Vila Murtinho no dia 05 de setembro de 1953, e em 1964 passou a residir na “Colocação do Ambrósio”, nas proximidades onde está localizada a feira do Agronegócio, que leva o seu nome.
Sabem beradeiros e beradeiras, depois do próprio Ambrósio (seringueiro), que a história não registra outras informações sobre ele, o seu Piraíba (agricultor, plantador de macaxeira), foi o primeiro morador do local que compreende hoje a área urbana do Berço do Madeira.
Que justa homenagem a municipalidade presta a esse corajoso pioneiro, ao deixar registrado de forma definitiva o seu nome na fachada da Feira do Agronegócio. A iniciativa do Marcélio Brasileiro é um compromisso com a preservação da História e o reconhecimento das pessoas que dedicaram suas vidas na construção do Berço do Madeira.
Beradeiros e beradeiras! Reitero o convite a vocês, no próximo domingo façam uma visita à Feira do Agronegócio Piraíba e saboreiem um café, com bolo de macaxeira ou tapioca.
Ah! Sem açúcar, um dos quatro alimentos brancos da morte, os outros são: sal, farinha de trigo e leite de vaca pasteurizado.
Simon O. dos Santos – Cronista
Crônica
ZÉ BRASILEIRO RECEBE UM BUQUÊ DE QUIABOS
Sentada em uma das poltronas da secretaria do gabinete do prefeito, uma senhora moradora do bairro Planalto aguarda a sua vez para ser atendida, enquanto observa o entra e sai acelerado comum no início do expediente das segundas-feiras.
Ela se dirige à secretária e pergunta se é possível falar com o prefeito Zé Brasileiro. A secretária, seguindo os procedimentos de praxe, pergunta-lhe qual o assunto. A senhora com um punhado (moi) de quiabos envolto em um laço impecável de fita vermelha, como se fosse o buquê de uma noiva, lhe diz:
– Quero entregar ao seu Zé, e colocou o moi de quiabos ainda molhado pelo sereno da noite na altura dos olhos da secretária, colhi agora cedo na minha horta, é a única produção por enquanto, e foi o seu Zé Brasileiro quem me doou uma carrada de terra preta quando lhe pedi no início do ano.
Alguns dias depois, sem que eu pedisse, ele me trouxe vários sacos de esterco de gado, agradeci e disse a ele que parte da primeira safra, eu levaria para ele. E hoje, estou aqui “muita agradecida”, para entregar a ele esses quiabos.
A secretária, em silencio, olhou atentamente para aquela humilde senhora e pensou: é a primeira vez que vejo uma pessoa vir ao gabinete entregar o fruto do seu laborioso trabalho ao prefeito. Agora mesmo, várias pessoas aguardam para falar com ele, alguns insatisfeitos porque o cargo do filho ou da nora não saiu, outros em busca de requisição de gasolina, remédio ou gás de cozinha, entre tantos pedidos que deixam o prefeito estupefato com a cara de pau do sujeito.
A secretária acompanhou a senhora toda faceira com seu “buquê de quiabos” ao gabinete do prefeito. José Brasileiro, com sua índole franciscana ao ver a senhora entrar, levantou-se de sua confortável poltrona e caminhou ao seu encontro e deu-lhe um abraço entre risadas e falas afetuosas.
– “E muié, tu é danada mermo, falou que ia fazer a horta, e fez mermo. Ano que vem vou levar outra carrada de terra preta pra tu aumentar a horta e vender verdura. Dá dinheiro muié, horta dá dinheiro”.
A senhora um pouco encabulada, após ouvir o prefeito, entregou-lhe o “buquê de quiabos”, e disse-lhe: seu Zé, vou vender minhas verduras e comprar mantimentos para minha família graças a sua preciosa ajuda, tenho certeza disso. Obrigada e quando sobrar tempo, passe lá em casa para tomar um cafezinho e ver a belezura que ficou a minha horta.
Essa senhora nunca foi ao gabinete do prefeito pedir-lhe um emprego, uma requisição de gás ou coisa parecida. E o Zé Brasileiro através de uma simples carrada de terra preta e alguns sacos de esterco de boi promoveu o empoderamento daquela família.
Zé Brasileiro sabe que a ajuda mais valiosa é aquela que promove e garante a subsistência e o crescimento da pessoa a longo prazo. A senhora retirou-se muita agradecida, enquanto o prefeito enfeitava sua mesa com um buquê de quiabos em plena manhã de uma agitada segunda-feira.
Simon O. dos Santos – Cronista
Nova Mamoré, 13 de agosto de 2025.
Crônica
O SUAVE SOPRO DE MINHA MÃE
Às dez horas, conforme determinação da Ceron, o técnico de plantão desligava a chave do gerador de energia e o breu tomava conta da vila. O alarido dos cães deixava a noite mais assustadora ainda e os poucos moradores retardatários que perambulavam pelas ruas tomavam apressados a direção de suas residências.
Pouco tempo depois, até os cães se recolhiam em silêncio e a escuridão penetrava solene e altiva pelas cumeeiras das casas, alcançando as pálpebras insones dos moradores, iluminadas pelas reduzidas chamas das lamparinas que tingiam de fuligem e cheiro de querosene o telhado das moradias.
Tudo na casa lembrava um pouco o cheiro das lamparinas. As pessoas cheiravam a querosene, as roupas, os utensílios domésticos e até os animais exalavam o odor inconfundível dessas luminárias portáteis.
Sobre a mesa do jantar, duas lamparinas cor de bronze com seus pavios de algodão eram colocadas em pontos equidistantes de maneira a iluminar a comida, às vezes, sobras do almoço, temperada com afeto materno e impregnada por um leve aroma de querosene, deixando-a mais saborosa ainda.
Após o jantar, nossa mãe empunhava a lamparina com a melhor chama, um pouco acima de sua cabeça e fazia a última ronda pelo quintal antes de se recolher. Depois passava em revista os quartos dos filhos, as salas, a cozinha cuidadosamente arrumada e verificava se todas as portas e janelas da casa estavam bem fechadas.
Paulatinamente, as lamparinas iam sendo apagadas, restando apenas a de minha mãe em seu quarto como um farol a nos iluminar e a nos bendizer. Até hoje ouço o suave sopro de minha mãe apagando a lamparina antes de se deitar na cama, e sinto o cheiro da fuligem nos cobrindo como um bálsamo a nos acalentar o sono.
Quando os técnicos decidiram instalar energia elétrica vinte e quatro horas na vila, as lamparinas caíram em desuso, tornaram-se obsoletas, antiquadas, utensílios poluentes e sem utilidade prática. Hoje, as lamparinas são apenas objetos de decoração em ambientes sofisticados, mas continuam presentes na minha memória, assim como o suave sopro de minha mãe apagando a chama antes de se deitar.
Simon O. dos Santos – Escritor
Crônica
AS NOITES NA ROÇA
Anoitecia lentamente naquela época, o agasalho da noite surgia muito longe e vinha em silencia cobrindo o firmamento após fazer uma reverência respeitosa ao sol que com seu casaco colorido e aquecido se recolhia para descansar e ressurgir resplandecente e regenerado na manhã seguinte.
A iluminação elétrica quebrou essa magia própria do anoitecer na roça. Anoitecia sem urgência, era um rito de passagem em que todos percebiam o abraço fraterno e caloroso entre o fim do dia e o início da noite.
A galinhas bicando os últimos grãos de milho antes de se empoleirarem nos galhos da cabaceira. A Gado remoendo em silêncio, chicoteando com a calda as últimas e incômodas mutucas, aguardava o reconfortante cobertor de estrelas que descia suavemente clareando o estábulo.
Os porcos no chiqueiro sempre inquietos e famintos durante o dia, ao anoitecer silenciavam e raramente soltavam um grunhido. Os únicos animais que não tinham direito ao descanso noturno eram os cães, alertas, vigiavam a casa, o estábulo, o chiqueiro e a cabaceira, quase sempre visitada pelas mucuras, iraras e gatos maracajás.
Naquela época, a noite era mais noite, estrelada e com vagalumes, parece que era maior que as noites de hoje com suas luzes artificiais. Mesmo sem vê-los, sabíamos que a noite era habitada por criaturas pavorosas e assustadoras e que nos faziam recolher mais cedo ao conforto da cama.
As noites de hoje são menores, insípidas, coloridas artificialmente e não assustam ninguém, nem as crianças, essas nem percebem que anoiteceu de fato, seduzidas por tantos e variados estímulos eletrônicos acham uma chatice quando a mãe fala: “criança, hora de ir para a cama”, antes, local de descanso, agora local de tormento e castigo.
As noites na roça tinham o lobisomem, a matintaperera, a rasga mortalha com seu voo rasante e assustador sobre o telhado velando nosso sono, o pio da coruja e o uivo dos cães. Era uma sinfonia de sons e ruídos medonhos e implacáveis nos avisando: “permaneçam na cama”, a noite não é uma criança.
A noite hoje definhou, ficou raquítica, medrosa, se esconde na luz pálida das lâmpadas florescentes. Nem notamos mais a presença da lua, naquela época ficávamos eufóricos quando ouvíamos, amanhã vai ser “lua cheia”, era uma maravilha, um acontecimento na roça, a lua subindo no céu feito um balão gigante, se esparramava pelo terreiro e se infiltrava pelas frestas da casa para velar nosso sono.
A noite hoje cabe dentro de uma lâmpada florescente. A crianças da “era dos eletrônicos”, pensa que a lua é uma lâmpada que se soltou do poste e flutua no espaço com pequenas outras lâmpadas que um dia foram chamadas de estrelas.
O dia hoje dura vinte e quatro horas. Na roça, todas as noites víamos algo parecido com “A Noite Estrelada”, do Van Gogh.
Simon O. dos Santos – Escritor.
