Crônica
“MEU PAI E A TERCEIRA MARGEM DO RIO: UMA LIÇÃO DE VIDA”
Há aproximadamente dois anos meu pai foi diagnosticado com Alzheimer. Desde então ele foi migrando paulatinamente para a terceira margem do rio, onde agora habita sereno, em silêncio, alheio aos apelos e aos profundos mistério do existir.
Lhes pergunto caríssimos leitores e leitoras da Pérola do Mamoré e do Berço do Madeira, para qual plano viajou sua memória? De qual santuário ela nos espreita e nos vigia agora?
Será para sempre um insondável mistério a nos interpelar?
Beradeiros e beradeiras! Seus comedores de massaco, essa crônica não será um lamento ou uma queixa, mas, o engrandecimento profundo dos ensinamentos do meu pai, e que nesse momento, sem pronunciar uma única palavra, parecer nos ensinar a sua última e grande lição.
Mesmo habitando na terceira margem do rio, seu silêncio é mais eloquente do que todas as palavras que pronunciou durante toda a sua vida. Da janela de seus olhos sábios e cansados exalam a sabedoria e a luminosidade de sua grande e última lição:
Meus filhos! Tenham zelo e cuidado uns com os outros.
Um zelo que ele cultivou a vida inteira, trabalhando incansavelmente, de sol a sol sem reclamar, sem enfado e sem maldizer a pouca colheita.
No próximo ano será melhor! Profetizava meu pai, com a grandeza e a coragem dos homens semeadores de sonhos, esperanças e rompedores de fronteiras.
Sua travessia foi memorável e inspiradora, ainda criança deixou o aconchego de pai e mãe no Ceará e migrou com os irmãos mais velhos para a Colônia Agrícola do Iata, nos grotões da Amazônia, em busca da terra prometida.
Na terra prometida meu pai plantou, colheu, caçou, pescou, jogou futebol, conheceu o grande amor de sua vida (a pedra preciosa Safira), embalou nove filhos, sorriu, brincou, dançou, festejou, rezou e construiu um templo sagrado onde emoldurou sua família.
O poeta Bob Dylan perguntou certa vez: Quantas estradas um homem precisará percorrer até que possam chamá-lo de homem.?
Ah! Beradeiros e beradeiras, seus comedores de açaí, até chegar à terceira margem do rio, meu pai um legítimo arigó navegou mares, percorreu ferrovias e infindáveis caminhos, estradas, vielas, becos, varadores, ramais, rios e igarapés, até se constituir como homem cumpridor de seu destino.
Beradeiros e beradeiras, seus comedores de peixe assado na folha de bananeira, somos oito filhos, oito soldados da mesma patente com a missão sublime de resguardar em um relicário cravejado de safiras a memória ancestral de nosso pai.
Creiam-me! Sua memória implacável não é um mistério insondável a nos interpelar, ela vive e ressurge em cada um de nós. Somos agora depositários e semeadores de sua memória viva, enquanto ele habita silenciosamente em sua canoa na terceira margem do rio Madeira? Do rio Mamoré? Do rio Iata?
Caríssimos beradeiros e beradeiras dessas terras onde ainda ecoa o inesquecível apito do trem, se acaso se sentirem tocados pelo aconchego dessa crônica, leiam o belíssimo e comovente conto do genial Guimarães Rosa: A Terceira Margem do Rio. “Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.”
E vocês, beradeiros e beradeiras das margens do Mamoré e do Madeira, onde nascem a canarana, quantos caminhos já percorreram?
Atentem beradeiros e beradeiros, comedores de farinha d’água! “Caminhante, não existe caminho, o caminho se faz ao caminhar”.
Meu pai se fez ao caminhar…..
Simon O. dos Santos- Cronista
Crônica
ZÉ BRASILEIRO RECEBE UM BUQUÊ DE QUIABOS
Sentada em uma das poltronas da secretaria do gabinete do prefeito, uma senhora moradora do bairro Planalto aguarda a sua vez para ser atendida, enquanto observa o entra e sai acelerado comum no início do expediente das segundas-feiras.
Ela se dirige à secretária e pergunta se é possível falar com o prefeito Zé Brasileiro. A secretária, seguindo os procedimentos de praxe, pergunta-lhe qual o assunto. A senhora com um punhado (moi) de quiabos envolto em um laço impecável de fita vermelha, como se fosse o buquê de uma noiva, lhe diz:
– Quero entregar ao seu Zé, e colocou o moi de quiabos ainda molhado pelo sereno da noite na altura dos olhos da secretária, colhi agora cedo na minha horta, é a única produção por enquanto, e foi o seu Zé Brasileiro quem me doou uma carrada de terra preta quando lhe pedi no início do ano.
Alguns dias depois, sem que eu pedisse, ele me trouxe vários sacos de esterco de gado, agradeci e disse a ele que parte da primeira safra, eu levaria para ele. E hoje, estou aqui “muita agradecida”, para entregar a ele esses quiabos.
A secretária, em silencio, olhou atentamente para aquela humilde senhora e pensou: é a primeira vez que vejo uma pessoa vir ao gabinete entregar o fruto do seu laborioso trabalho ao prefeito. Agora mesmo, várias pessoas aguardam para falar com ele, alguns insatisfeitos porque o cargo do filho ou da nora não saiu, outros em busca de requisição de gasolina, remédio ou gás de cozinha, entre tantos pedidos que deixam o prefeito estupefato com a cara de pau do sujeito.
A secretária acompanhou a senhora toda faceira com seu “buquê de quiabos” ao gabinete do prefeito. José Brasileiro, com sua índole franciscana ao ver a senhora entrar, levantou-se de sua confortável poltrona e caminhou ao seu encontro e deu-lhe um abraço entre risadas e falas afetuosas.
– “E muié, tu é danada mermo, falou que ia fazer a horta, e fez mermo. Ano que vem vou levar outra carrada de terra preta pra tu aumentar a horta e vender verdura. Dá dinheiro muié, horta dá dinheiro”.
A senhora um pouco encabulada, após ouvir o prefeito, entregou-lhe o “buquê de quiabos”, e disse-lhe: seu Zé, vou vender minhas verduras e comprar mantimentos para minha família graças a sua preciosa ajuda, tenho certeza disso. Obrigada e quando sobrar tempo, passe lá em casa para tomar um cafezinho e ver a belezura que ficou a minha horta.
Essa senhora nunca foi ao gabinete do prefeito pedir-lhe um emprego, uma requisição de gás ou coisa parecida. E o Zé Brasileiro através de uma simples carrada de terra preta e alguns sacos de esterco de boi promoveu o empoderamento daquela família.
Zé Brasileiro sabe que a ajuda mais valiosa é aquela que promove e garante a subsistência e o crescimento da pessoa a longo prazo. A senhora retirou-se muita agradecida, enquanto o prefeito enfeitava sua mesa com um buquê de quiabos em plena manhã de uma agitada segunda-feira.
Simon O. dos Santos – Cronista
Nova Mamoré, 13 de agosto de 2025.
Crônica
O SUAVE SOPRO DE MINHA MÃE
Às dez horas, conforme determinação da Ceron, o técnico de plantão desligava a chave do gerador de energia e o breu tomava conta da vila. O alarido dos cães deixava a noite mais assustadora ainda e os poucos moradores retardatários que perambulavam pelas ruas tomavam apressados a direção de suas residências.
Pouco tempo depois, até os cães se recolhiam em silêncio e a escuridão penetrava solene e altiva pelas cumeeiras das casas, alcançando as pálpebras insones dos moradores, iluminadas pelas reduzidas chamas das lamparinas que tingiam de fuligem e cheiro de querosene o telhado das moradias.
Tudo na casa lembrava um pouco o cheiro das lamparinas. As pessoas cheiravam a querosene, as roupas, os utensílios domésticos e até os animais exalavam o odor inconfundível dessas luminárias portáteis.
Sobre a mesa do jantar, duas lamparinas cor de bronze com seus pavios de algodão eram colocadas em pontos equidistantes de maneira a iluminar a comida, às vezes, sobras do almoço, temperada com afeto materno e impregnada por um leve aroma de querosene, deixando-a mais saborosa ainda.
Após o jantar, nossa mãe empunhava a lamparina com a melhor chama, um pouco acima de sua cabeça e fazia a última ronda pelo quintal antes de se recolher. Depois passava em revista os quartos dos filhos, as salas, a cozinha cuidadosamente arrumada e verificava se todas as portas e janelas da casa estavam bem fechadas.
Paulatinamente, as lamparinas iam sendo apagadas, restando apenas a de minha mãe em seu quarto como um farol a nos iluminar e a nos bendizer. Até hoje ouço o suave sopro de minha mãe apagando a lamparina antes de se deitar na cama, e sinto o cheiro da fuligem nos cobrindo como um bálsamo a nos acalentar o sono.
Quando os técnicos decidiram instalar energia elétrica vinte e quatro horas na vila, as lamparinas caíram em desuso, tornaram-se obsoletas, antiquadas, utensílios poluentes e sem utilidade prática. Hoje, as lamparinas são apenas objetos de decoração em ambientes sofisticados, mas continuam presentes na minha memória, assim como o suave sopro de minha mãe apagando a chama antes de se deitar.
Simon O. dos Santos – Escritor
Crônica
AS NOITES NA ROÇA
Anoitecia lentamente naquela época, o agasalho da noite surgia muito longe e vinha em silencia cobrindo o firmamento após fazer uma reverência respeitosa ao sol que com seu casaco colorido e aquecido se recolhia para descansar e ressurgir resplandecente e regenerado na manhã seguinte.
A iluminação elétrica quebrou essa magia própria do anoitecer na roça. Anoitecia sem urgência, era um rito de passagem em que todos percebiam o abraço fraterno e caloroso entre o fim do dia e o início da noite.
A galinhas bicando os últimos grãos de milho antes de se empoleirarem nos galhos da cabaceira. A Gado remoendo em silêncio, chicoteando com a calda as últimas e incômodas mutucas, aguardava o reconfortante cobertor de estrelas que descia suavemente clareando o estábulo.
Os porcos no chiqueiro sempre inquietos e famintos durante o dia, ao anoitecer silenciavam e raramente soltavam um grunhido. Os únicos animais que não tinham direito ao descanso noturno eram os cães, alertas, vigiavam a casa, o estábulo, o chiqueiro e a cabaceira, quase sempre visitada pelas mucuras, iraras e gatos maracajás.
Naquela época, a noite era mais noite, estrelada e com vagalumes, parece que era maior que as noites de hoje com suas luzes artificiais. Mesmo sem vê-los, sabíamos que a noite era habitada por criaturas pavorosas e assustadoras e que nos faziam recolher mais cedo ao conforto da cama.
As noites de hoje são menores, insípidas, coloridas artificialmente e não assustam ninguém, nem as crianças, essas nem percebem que anoiteceu de fato, seduzidas por tantos e variados estímulos eletrônicos acham uma chatice quando a mãe fala: “criança, hora de ir para a cama”, antes, local de descanso, agora local de tormento e castigo.
As noites na roça tinham o lobisomem, a matintaperera, a rasga mortalha com seu voo rasante e assustador sobre o telhado velando nosso sono, o pio da coruja e o uivo dos cães. Era uma sinfonia de sons e ruídos medonhos e implacáveis nos avisando: “permaneçam na cama”, a noite não é uma criança.
A noite hoje definhou, ficou raquítica, medrosa, se esconde na luz pálida das lâmpadas florescentes. Nem notamos mais a presença da lua, naquela época ficávamos eufóricos quando ouvíamos, amanhã vai ser “lua cheia”, era uma maravilha, um acontecimento na roça, a lua subindo no céu feito um balão gigante, se esparramava pelo terreiro e se infiltrava pelas frestas da casa para velar nosso sono.
A noite hoje cabe dentro de uma lâmpada florescente. A crianças da “era dos eletrônicos”, pensa que a lua é uma lâmpada que se soltou do poste e flutua no espaço com pequenas outras lâmpadas que um dia foram chamadas de estrelas.
O dia hoje dura vinte e quatro horas. Na roça, todas as noites víamos algo parecido com “A Noite Estrelada”, do Van Gogh.
Simon O. dos Santos – Escritor.
