Crônica

MINHA MÃE FOI REGENTE DE UMA BELA E SILENCIOSA SINFONIA

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Senhora safira Oliveira dos Santos mãe do nosso cronista

O galo cantou no poleiro em estilo ripado que ficava ao lado esquerdo da nossa casa. Do outro lado, empoleirado no galho mais alto de uma cabaceira, seu oponente respondeu em um acorde um pouco mais alto, demonstrando quem mandava de fato e de direito no terreiro.

Não se importando com a rivalidade das cantorias galináceas, a manhã se avizinhava envolta na cerração fria e opaca, molhando a poeira que revestia o telhado cinza da nossa casa.

Antes do sol apagar a cerração matinal, minha mãe já estava de pé na soleira da porta da cozinha. Com a elegância de uma porta-bandeira em desfile de carnaval, ela descortinava solenemente o resto da manhã, lançando em aspiral a vasilha de milho, apaziguando os cantores no terreiro e chamando as aves para o banquete matinal.

No curral, seguia-se outro ritual, nobre e belo, igual. O leite batia no fundo do balde de alumínio, resvalava e formava uma espuma parecendo claras de ovo batidas com açúcar. Cada teta puxada alternadamente, provocava um chiado que ricocheteava pelo curral, tal qual o badalar do sino da Igreja de Santa Terezinha em Vila Murtinho, ecoando pelo Berço do Madeira.

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O chiado provocado pelo atrito entre o leite e o alumínio do balde deixava as vacas imersas em um transe que amolecia ainda mais as suas glândulas mamárias fazendo jorrar ainda mais leite, até esborrar pelas beiradas do balde e tingir de branco as botas sete léguas da minha mãe.

No chiqueiro, seguia-se mais uma harmoniosa composição da grande sinfonia matinal. A porca parideira com seus filhotes baés, mastigava a macaxeira cortada em pedaços uniformes, enquanto o barrão se fartava da lavagem servida no cocho feito de pneu cortado caprichosamente ao meio.

O capado roliço, sempre esfomeado e barulhento ficava em baia separada dos demais suínos e se alimentava de cuim e do soro que resultava do fabrico do queijo. O capado que um dia seria torresmo, se achava um privilegiado e jamais desconfiou do cocho cheio o dia inteiro, “quando a esmola é grande até o santo desconfia”.

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Nas proximidades do jirau, ficavam dois cochos arredondados de ferro, onde minha mãe servia coalhada ou as sobras do nosso jantar para os dois cães “ Ferralho” e “ Preguiça”. De todos os animais da grande sinfonia de minha mãe, o gato “Faro-Fino”, enorme, preto com uma mancha branca no peito, era o mais exigente, não se contentando com migalhas, exigia um quinhão mais apetitoso, de preferência, leite fresco em um pires limpo de cor branca, com pequenas flores beges nas bordas.

A pequena e produtiva horta de minha mãe era uma Floresta Amazônica em miniatura. A compostagem formada por uma rica mistura de esterco das leiteiras, cinzas do fogão a lenha e madeira apodrecida, deixava a cebolinha, o coentro, a couve, a alface, os tomates e os pepinos com a consistência aveludada e cores de um verde vivo e brilhante como casca de abacate.

Minha mãe era uma regente de uma orquestra afinadíssima e alegre. Ela nunca nos falou, mas acredito que seu mantra silencioso e contínuo era “quem planta e cria, só tem alegria”.

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Ao anoitecer, com a lamparina na mão, minha mãe passava silenciosamente em revista todo o seu quintal já adormecido, depois caminhava até o galinheiro e separava o frango que alimentaria a família no dia seguinte.

Minha mãe, a sua bela e silenciosa sinfonia desafinou: o galo ficou mudo, as leiteiras ficaram estéreis e a sua horta murchou. “Na parede da memória, a sua lembrança é o quadro que dói mais”.

 

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Simon O. dos Santos – Cronista

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