Crônica

A PEDRA DO CELULAR, A PEDRA FALANTE…

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Você criatura do Berço do Madeira, certamente, já ouviu falar sobre uma formação rochosa conhecida pela alcunha de “Pedra Preta”, localizada a vinte e quatro quilômetros da área urbana do distrito de Jacinópolis.

Imponente, a Pedra Preta chama a atenção pelo tamanho, e alimenta a curiosidade dos visitantes. Diz a lenda que ela surgiu quando a região ainda era um oceano. Pasmem criaturas! Os mais crédulos afirmam que ela teria sido um campo de pouso de naves extraterrestres.

Por hora, deixemos a Pedra Preta com sua vista panorâmica e seus visitantes intergalácticos, e passemos à nossa “Querida Pedra do Celular, a Pedra Falante”.

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Essa, bem mais modesta, porém, não menos importante, localiza-se a alguns metros do início do perímetro urbano do Berço do Madeira, às margens esquerda da BR-425, em direção à Pérola do Mamoré.

Durante milhares de anos, a nossa querida pedra falante incorporou solenemente o exercício da escuta. Uma escuta ativa que acolheu o seringueiro nas madrugadas frias de agosto, extraindo o látex nas estradas do seringal São Sebastião.

Escutou o apito longo e triste da Maria Fumaça serpenteando como uma cobra preta as curvas da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Escutou as badaladas do sino da Igreja de Santa Terezinha em Vila Murtinho, anunciando a boa nova.

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Escutou atentamente quando os trabalhadores empunhando machado, foice e facão, abriram o picadão que deu origem à BR-425. Escutou assustada o ronco dos tratores que passaram aos seus pés, alargando o picadão, e o barulho inconfundível do primeiro automóvel que passou com destino à Pérola do Mamoré.

Digo-lhe mais criaturas, a nossa querida pedra de aspecto arredondado, com um cocuruto levemente acentuado e reentrâncias ásperas como escamas de pirarucu cobrindo-lhe a face, foi nossa primeira antena de telefonia móvel. Nesse momento, ela deixou o milenar exercício da escuta e assumiu humildemente a força inquebrantável do verbo.

Quando esse serviço telefônico ainda engatinhava nessas paragens, a Pedra Falante foi a solução mais recorrente em busca da palavra. Do seu cocuruto, falava-se com o mundo, e por vezes, até com alienígenas esverdeados.

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Não foram poucos os que subiram ao seu topo em buscas de conexão com um ente querido, com um amigo, para dar ou receber notícias alegres ou tristes. Para resolver uma pendência de trabalho, ou para fazer uma declaração de amor.

Na Pedra Falante subiu o caminhoneiro, o viajante, o apaixonado, o morador do Berço do Madeira e o da Pérola do Mamoré. Subiu o professor, o médico, o andarilho, o madeireiro, o taxista e o peão de rodeio.

Subiu o” bêbado e o equilibrista”, o menino para comer manga e o ciclista para tirar uma foto. É somente uma pedra, dirão os que passam e só veem uma rocha.

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Não criatura! Não é apenas uma formação rochosa, como tantas no Berço do Madeira, é mais que uma pedra, é um ente vivo onde estão impressas nossas digitais mais ancestrais.

A nossa Pedra Falante não é imponente como a Pedra Preta, nem famosa como a Pedra Gorda às margens da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, mas, é a pedra que nos ensinou a força do verbo.

A administração Municipal projeta construir uma bela pista de caminhada com ciclovia, ligando o perímetro urbano do Berço do Madeira às adjacências da ponte do igarapé Lajes.

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Não! Esse monumento natural não poderá ser implodido. Nós, os beradeiros e beradeiras do Berço do Madeira, faremos uma grande marcha, caso alguém atente contra a sua integridade física e histórica.

Espera-se que o projeto de urbanização incorpore harmonicamente a Pedra Falante em seu traçado curvilíneo, e ela continue sendo nosso mensageiro pelas sendas e caminhos do Berço do Madeira.

A Pedra Falante é um elemento constituinte de nossa história, e deveria ser tombada como patrimônio natural do Berço do Madeira.

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Simon O. dos Santos – Cronista.

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