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Leila Ramos, presidente da Feetins; Padre Aderso dos Santos; Teólogo Wolfgang Teske; Pastor Moisés Lemos | Fotos: Divulgação

A Páscoa na visão de 4 religiões

A Páscoa é cercada de simbolismos e uma das mais importantes celebrações religiosas, em todos os continentes. Trata-se de uma festividade religiosa e também um feriado que celebra a ressurreição de Jesus, ocorrida três dias depois da sua crucificação no Calvário. É a principal celebração do ano litúrgico e, também, a mais antiga e importante festa cristã.

A data da Páscoa determina todas as demais datas das festas móveis cristãs. Ela marca o ápice da Paixão de Cristo, que é precedida pela Quaresma, um período de 40 dias de jejum, orações e penitências.

O Jornal Opção ouviu autoridades religiosas de Palmas, de quatro segmentos – espíritas, luteranos, católicos e evangélicos – com a finalidade de esclarecer como cada um deles enxerga, interpreta e comemora o evento festivo.

Leila Ramos é presidente da Federação Espírita do Estado do Tocantins (Feetins), cargo que já exerceu por vários mandatos. Servidora pública estadual, é graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia do Vale do São Patrício de Ceres (GO). Está radicada no Tocantins desde 1989, oriunda do Estado de Goiás.

Na visão espírita, qual a concepção da páscoa, comemorada neste domingo?

O espiritismo não tem outra moral, senão a do próprio Cristo. Ele propôs, na essência, uma renovação de valores, um novo significado para a caminhada de cada um. Os preceitos são: amai-vos uns aos outros como eu vos amei; amai ao próximo como a ti mesmo; e por fim, amai os vossos inimigos. O sentido da páscoa para nós, espíritas, é no sentido de cultuar a vida, e não fazer apologia à morte.

Na verdade, nós “descrucificamos” Jesus, para estudar a caminhada dele no sentido de mostrar que a vida continua. Ele não morreu, não foi embora… Jesus Cristo, para nós espíritas, é o governador do Planeta Terra. Ele encarnou para nos ensinar seus preceitos e vivenciou tudo que ensinou, ao invés de escrever linhas e linhas. Voltando ao plano espiritual, Jesus está no comando. Logo, ele não “voltará”, porque, a bem da verdade, ele “está” presente em todos os nossos momentos.

Com base nisso, não cultuamos a saga dos 40 dias nem tampouco a Semana Santa, como é classificada por outras religiões. O que marca é a mensagem deixada por ele, que é nosso mestre, guia e modelo. A nossa moral e todo ensinamento espírita, é baseada em Jesus, mas um Cristo descrucificado, sem cultuar a dor a que ele foi submetido enquanto encarnado. Não odiamos Judas, como outros movimentos cristãos. A história nos conta que ele incorreu em erro, mas se o próprio Jesus mandou que perdoássemos nossos desafetos, porque ainda deveríamos condená-lo? Isso significa que nós, que nos julgamos cristãos, ainda estamos distantes do entendimento da mensagem de Jesus. O Messias, em momento algum e em nenhuma circunstância, rejeitou ladrões, mulheres adúlteras, cegos, paralíticos, enfermos físicos ou morais, uma vez que atendia todos, incondicionalmente, de forma amorosa, porque sabia que aquele espírito, revestido de corpo físico, precisava de ajuda. Ele nos deixou uma mensagem imortal que transcende todas as gerações e séculos: seus grandes ensinamentos, embutidos de simbologias, através de parábolas, o que acaba por se tornar universal. Essa figura de linguagem falava aos mais simples, e permaneceu viva ao longo dos séculos.

A proposta espírita é fazer uma leitura do que Cristo deixou, como ele deixou e o que quis dizer. Não se trata de interpretações pessoais ou tendenciosas, mas sim, racional de um espírito crístico e de luz. Cada qual no seu estágio evolutivo e no seu grau de maturidade, nós espíritas, devemos considerar a Páscoa como um momento de reflexão, de mudança de postura e de reforma íntima. Vamos celebrar a renovação, considerando que nosso estágio na terra é apenas uma passagem, e que a verdadeira vida é a espiritual.

Padre Aderso Alves dos Santos é graduado em filosofia e teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-GO). Enquanto seminarista, enfrentou alguns problemas com seus ordenadores, face ao seu comportamento extrovertido, rebelde e revolucionário, que, a princípio, não se encaixava com os padrões da Igreja Católica. Superadas tais arestas, está radicado no Tocantins desde 2006, oriundo do Estado de Goiás, e foi ordenado padre na cidade de Rio Sono (TO), pelo Arcebispo de Palmas, à época, Dom Alberto Taveira. Atualmente, o religioso exerce a função de vigário na Paróquia Santa Rita de Cássia, no Jardim Aureny I, em Taquaralto, Palmas. Paralelamente, em comunhão com a igreja, vem desenvolvendo trabalhos sociais junto ao Instituto Quem Diria, que tem por missão cuidar de jovens em situação de vulnerabilidade social, em decorrência do envolvimento com psicotrópicos.

Neste domingo, 16, comemora-se a Páscoa, uma data importante para todos os seguimentos religiosos. Qual é a visão da Igreja Católica sobre este acontecimento festivo?

Antes de Jesus Cristo, os povos comemoravam a Páscoa judaica – a festa da integração, da fartura, da colheita, que seguia, sobretudo, o calendário lunar. A maior prova disso é o fato de toda Sexta-feira Santa ocorrer durante a lua cheia. Após era do Cristo, a Páscoa adquiriu um novo sentido, na medida em que foi adaptada ao cristianismo, sem destruir, entretanto, as raízes que já existiam.

Levando isso para o lado humano, o cristianismo tem como meta a transformação dos seres humanos. Por mais equívocos que algum de nós tenha cometido, a conversão é o primeiro caminho para se aperfeiçoar, como ensinou Jesus. A Páscoa é exatamente isso: a mudança, a reforma pessoal, a renovação.

Estrategicamente, Jesus escolheu justamente o período em que se comemorava a páscoa judaica, para adentrar em Jerusalém. Seus inflamados e questionadores discursos acerca dos comportamentos equivocados, além da submissão daquele povo, naturalmente, chamaram a atenção dos judeus que estavam ali reunidos, e por consequência, dos governantes romanos. Por ter sido intitulado o “Rei dos Judeus”, afrontando de certa forma o poder constituído, foi perseguido, crucificado e morto na sexta-feira.

Mas a mensagem que deve ficar clara aos católicos e, também, a todas as religiões cristãs, é a boa nova da ressurreição, que deve ser compreendida como mais forte que a morte. As pessoas adotaram o “estranho” comportamento de cultuar a morte, enchendo as igrejas apenas na Sexta-feira Santa, esquecendo-se que a celebração deve ser no Domingo de Páscoa, quando muitos, certos que cumpriram seu papel no dia da “Paixão”, não voltam às igrejas aos domingos, para celebrar a vida. Portanto, minha mensagem a todos católicos é que procurem as igrejas no Domingo de Páscoa, assistam às missas, cultivem o amor e a alegria, celebrem a vida, a renovação e a esperança no Cristo ressuscitado.

Wolfgang Teske é graduado em jornalismo, educador, teólogo com pós-graduação em Docência do Ensino Superior, Ciência Política, mestre em Ciências do Ambiente, com foco em cultura e meio ambiente, doutorando em Ciências do Ambiente focado em natureza, cultura e sociedade. Radicado em Palmas desde 1992, oriundo do Estado de Santa Catarina, implantou a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) em Palmas, desde o maternal, ensino fundamental, segundo grau, curso superior até a pós-graduação. Foi diretor da Escola Técnica Federal e um dos precursores na implantação das Escolas de Tempo Integral do Município de Palmas, além de escritor, professor universitário do ITOP e UFT e pesquisador da cultura Quilombola.

A reforma protestante promovida por Lutero é um dos marcos da expansão religiosa pelo mundo. O sr. poderia explicar, brevemente, como isso ocorreu?

Em 2017 celebra-se 500 anos da reforma. Uma data muito importante, sob ambos os pontos de vista: histórico e cristão. O Papa Francisco, inclusive, participou do início das comemorações, em 31 de outubro do ano passado, ocorrido na Suécia. A presença do Papa no evento, retrata a importância e o reconhecimento da obra de Martinho Lutero, um intelectual e humanista que se destacou no início do iluminismo.

Ele queria reformar, durante a idade média (Século XVI), a Igreja Católica, e por isso, foi excomungado dela e julgado pelo Rei Carlos X, que o tronou proscrito. Lutero não queria formar uma nova igreja, longe disso; o que ele não aceitava era a venda das indulgências, que era o perdão de pecados, mediante de pagamentos à instituição religiosa, garantindo ao referido pecador, inclusive, um pedacinho do céu. Tudo isso gerou a efetiva Reforma Protestante, que originou, por consequência, outros dissidentes, como a linha que os evangélicos seguem atualmente.

Qual é a percepção dos luteranos em relação ao advento da Páscoa?

Na realidade, quando se fala da Páscoa, somos remetidos, historicamente, à Páscoa Judaica, festejada antes mesmo do nascimento de Jesus Cristo. Ela celebrava a saída do povo de Israel do Egito. Antes daquele momento, aconteceram as nove pragas no Egito, quando o faraó não permitia a saída do povo, mesmo diante do apelo de Moisés. Então, numa determinada noite, houve uma orientação divina para que o sangue dos animais sacrificados fosse utilizado como tinta, acima das ombreiras das portas de todas as casas onde não residissem hebreus. Dessa forma, sobreviveram apenas os primogênitos que se encontravam nas casas que não estavam pintadas. Os demais primogênitos foram atingidos pelo anjo da morte e faleceram, inclusive aqueles que residiam no palácio do faraó. A marca desse sangue era o sinal da salvação. Dessa forma, o sacrifício de Jesus, que ocorreu na Sexta-feira Santa, representa o cumprimento de uma promessa salvadora, descrita na Bíblia, uma vez que naquela oportunidade, ao invés do sacrifício de animais, o crucificado foi o próprio filho de Deus, em demonstração do seu infinito amor, visando a salvação da humanidade. A vitória sobre a morte, foi representada pela ressurreição do Cristo.

Em que pese os judeus continuarem a seguir os preceitos do Velho Testamento, surge após a morte de Jesus, uma nova corrente: o cristianismo. Sob essa nova visão, a Páscoa passou a ser comemorada não mais como a celebração da saída do povo hebreu do Egito, livrando-os da morte e da opressão, mas sim a Jesus Cristo, que venceu a morte. Aqueles que nele creem, não por próprio mérito, mas por fé nos ensinamentos de Jesus, conforme as Sagradas Escrituras, também vão ter a salvação eterna. Por esta razão, a Páscoa é a maior celebração do cristianismo, em vez do Natal ou a Sexta-feira da Paixão, como muitos classificam.

Há uma comemoração especial, pelos luteranos, nesta semana da Páscoa?

São várias celebrações, iniciando-se com o advento do Natal e subsequentemente, a Quaresma – 40 dias sem contar os domingos – antes do Domingo de Páscoa, que também fazemos reverência. No Domingo de Ramos inicia-se a Semana Santa, que, sem dúvida, é diferenciada para os cristãos luteranos. Essa é a esperança de vida para aqueles que seguem o cristianismo: a experiência transcendental da vida eterna, representada exatamente pela ressurreição de Jesus Cristo, celebrada na Páscoa.

Moisés de Oliveira Lemos é pastor evangélico da Assembleia de Deus, atuando no projeto “Restaurando Vidas”, em Palmas. É graduado em teologia e direito, funcionário público federal aposentado e radicado na capital tocantinense desde 2009.

Como os evangélicos celebram a Páscoa e quais são os preceitos religiosos existentes nessa congregação de fiéis?

Várias são as linhas de raciocínio, contudo, todas convergem no sentido de que a Páscoa é uma cerimônia, apropriadamente descrita no livro do Êxodo, capítulo 12. O início dela se dá horas antes da libertação do povo hebreu-israelita do Egito. Na essência, a cerimônia significa a passagem, a transliteração, ou seja, sair da escravidão vivida no Egito, para uma nova vida em liberdade. Não viveriam, portanto, sob o jugo do Faraó do Egito, à medida que teriam sua própria nação, suas próprias leis, seus próprios costumes. Páscoa é, enfim, essa passagem de um estado para outro.

Com o advento do Messias, não foram totalmente abolidas as tradições e significados desse pensamento embrionário que é a “passagem” em si, contudo, foram-lhe acrescentados outros símbolos, valores e significados. Jesus era judeu, e antes do seu martírio, logicamente, celebrou a Páscoa e acabou por trazer, uma nova roupagem a este acontecimento. Veja: independentemente do lugar do mundo onde a pessoa esteja, se ela confessa que está inserida na grande família do cristianismo, a celebração trazida por Jesus será sempre a mesma, mesmo que a pessoa seja pentecostal ou apostólica.

É que se antes o povo era escravo – fisicamente falando – do império egípcio, agora tornara-se escravos dos pecados, dos males e dos vícios, que lhes distanciam de Deus. A roupagem ou legado que o Messias emprestou à Páscoa, foi a introdução desse novo significado: a “passagem” agora não significa mais libertar-se da escravidão e sim dos males inerentes aos seres humanos, dos quais devemos nos libertar para entrar em comunhão com Deus. Ao ensejo, incorporou símbolos, revitalizando a páscoa, ao substituir o antigo sangue do cordeiro dos judeus, para o cálice de vinho, como também o pão – a ceia do Senhor, enfim. Simbolicamente, repartir o pão e o vinho significa a comunhão, unidade, partilha, acolhida, etc.

E quanto ao reiterado enfoque comercial ao qual a Páscoa foi submetida?

Insta enfatizar que, o comércio após alguns anos, também incorporou alguns milenares símbolos do Egito, como o coelho, face à sua fertilidade e, do judaísmo, pegaram emprestado o ovo, que é o único alimento que não perde sua forma, mesmo após ser cozido e exposto ao fogo. É um simbolismo que significa que mesmo que o povo de Israel estivesse sujeito a provas de fogo no Egito, não perderiam sua essência: judeu na acepção do termo. A figura delicada do coelho, aliado a incorporação do chocolate ao ovo, acabou por dar um tom comercial a essa celebração religiosa.

Entretanto, o que deve prevalecer são os ensinamentos do Messias, acerca da passagem e da renovação das pessoas. É necessário cultivar os valores religiosos, familiares e saudáveis, não abandonado esses preceitos, invertendo prioridades. É preciso dar mais importância ao “ser” do que o “ter”. Essa valoração excessiva tem causado uma verdadeira preguiça espiritual, que acaba por sucumbir costumes e valores religiosos.

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